O Ritual de Amor e Ternura




                                     O zumbido começou e a agulha da máquina de tatuagem deslizou pela pele de seu esterno. Ela não reclamou. Essa dor era leve e limpa, já havia suportado dores maiores e mais pesadas.
                                   "Meu!", ela pensava, "Meu corpo. Meu!". Essa era uma dor que ela escolhera. Agora a dor não a quebrava, a dor unia seus pedaços, a lembrava que nenhuma dor seria grande o suficiente para quebrá-la de novo. Nunca mais.
                                  Não precisou nem olhar para baixo, a tatuadora compreendia seu coração como apenas um mulher pode entender a outra.
                                  Ela fechou os olhos, embalada pelo contínuo e baixo zumbido, e foi transportada para a época das tribos que existiam antes dos reinos. Não estava mais no meio da cidade, estava realizando um ritual de purificação de irmã para irmã em meio à natureza.
                                "Meu corpo me pertence. Somente eu decido o que será feito com ele.". Tendo descoberto a guerreira que era, ela nunca mais seria escrava da vontade de ninguém, seria sempre Senhora de si mesma.
                                O pequeno bouquet de ervas protetoras foi tatuado entre seus seios, bem perto do coração, um lembrete para encher sua alma e seu coração de amor e ternura, barrando a entrada do ódio e do rancor que tantas vezes tentaram impôr a ela.

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