Herança Azul


                    

                         – Você só pode estar brincando! Você que quer ficar com tudo isso? – Heitor explodiu com a esposa.
                      – Claro que sim. Não podemos deixar essas plantas aqui. Elas vão morrer ou serão jogadas no lixo, e morrerão de qualquer jeito. – Aline respondeu com tranquilidade.
                      – Essas plantas eram daquela velha agourenta, eu não quero isso na nossa casa!
                      – Pelo amor de Deus, Heitor! Não fala assim da sua avó! Olha, eu vou colocar as plantas na cozinha, então. Você quase não entra lá mesmo, aí elas alegram o ambiente pra mim, ok?
                    Heitor percebeu que Aline estava usando seu tom de fim de conversa, então se limitou a resmungar baixinho quando ela se virou para avaliar os vasos de plantas.
                    – Tinha que ser sexta feira 13....
                    – Heitor, Você não é mais criança para ficar com essas superstições e essa implicância com a sua avó falecida. – Aline girou no mesmo lugar segurando um vaso de plantas verde claras em cada braço. – Por que você não começa pegando aquele vaso grande de Espada de São Jorge ali no fundo? É ótimo pra cortar energias negativas, quem sabe seu humor melhora também...
                   – Corta energia negativas e é tóxica, igual àquela velha. Nunca entendi essa preferência que ela tinha, vivia buscando tipos diferentes de plantas tóxicas. Um vaso de inocentes margaridas? Não era bom o suficiente para a vovó. Sempre tinha que ser alguma planta estranha...
                   – Aff... – Aline saiu da sala e levou as plantas que estava com ela para perto do elevador, os longos cabelos castanhos balançando no meio das costas.
                   – Você devia parar de ficar falando mal da sua avó. Nós acabamos de sair do cemitério. – Aline falou quando ela entrava de volta no apartamento que fora da avó do marido e ele saía carregando o grande vaso que ela tinha indicado.
                   – Você não tem ideia de como ela era. – Ele respondeu cansado, antes de depositar o grande vaso no chão com um gemido e voltar para o apartamento.
                   Heitor parou logo depois da porta e contemplou a sala do apartamento que sempre odiara. As cortinas era pesadas e floridas, bem estilo “casa de avó”. Tapetes grossos e estampados cobriam cada centímetro do chão; dois enormes sofás, daqueles embalados em plástico para não manchar o estofamento, estavam posicionados em L dividindo a sala ao meio, em frente à grande televisão (televisão de tubo, porque a avó era muito mão de vaca para comprar um eletrodoméstico novo enquanto um antigo ainda estivesse funcionando, mesmo que há anos ele só conseguisse sintonizar em um único canal). Heitor ainda se lembrava da sensação do plástico grudando em suas coxas nas tardes de verão que era obrigado a passar na casa da avó após a escola, porque os pais estavam trabalhando e não podiam pagar uma babá para ficar com ele. Essas tardes na casa da avó começaram aos seus 10 anos, quando a mãe voltou a trabalhar, até os seus 13 anos, quando ele finalmente conseguira convencer os pais que não iria colocar fogo no apartamento deles e nem convidar estranhos para entrar em casa.
                     O cheiro de poeira continuava impregnado no ar, como se o apartamento estivesse fechado há anos. A realidade não era muito distante disso: nos seus últimos três anos de vida a avó praticamente não saía de casa, e nunca abria as janelas. No máximo abria as pesadas cortinas para que suas plantas pudessem pegar sol, mas segundo ela o ar do apartamento era mais puro do que o do lado de fora por causa do oxigênio que as plantas produziam. Heitor tinha certeza que a velha estava gagá e tinha se acostumado ao cheiro da poeira.
                     – Querido, você precisa perdoar a sua avó pelos erros que ela cometeu. – Aline parou ao lado dele segurando agora dois vasos de plantas verde escuras, com folhas pendentes tão compridas que iam quase até os joelhos da esposa. Heitor a acompanhou até o elevador carregando um vaso que estava ao lado da porta sem nem reparar como era a planta.
                     – Como a gente perdoa alguém que simplesmente amava infernizar os outros? Ela sempre estava inventando regras malucas como desculpa para poder castigar meu pai e meus tios durante a infância deles; humilhava minha mãe quando ela vinha me buscar depois do trabalho, dizendo que “Mulher direita cuida primeiro da família e depois de si mesma”, sempre insinuando que minha mãe tinha casos com homens do trabalho... Ela acabou com o casamento dos meu pais, envenenou a mente do meu pai tanto que as brigas ficaram insuportáveis.
                     – Amor, essa era a mentalidade do tempo dela. Tem gente que nunca consegue perceber que o tempo mudou, que os costumes são outros... – Aline agitou uma mão no ar e com a outra empurrou o marido de volta para o apartamento. Ela já nem estava escolhendo quais plantas queria, só estava tentando levar o máximo que coubesse no carro deles.
                     – Um dos motivos que finalmente fizeram meus pais aceitarem me deixar parar de vir para cá depois do colégio foi quando eu contei que a qualquer deslize meu – esbarrar na TV, aumentar o volume mais do que ela queria, fazer o dever de casa ao invés de ficar conversando com ela, não comer toda a sopa horrorosa que ela fazia, e até abrir um pouco da janela para que um pouco de vento pudesse entrar –, ela batia nas minhas costas com umas folhas compridas e duras dessas plantas venenosas que ela tanto adorava, e eu passava a madrugada inteira em casa me coçando, mesmo depois de esfregar as costas com todos os tipos de sabonete que tivéssemos em casa. Ela me aterrorizava para não contar nada aos meus pais, dizendo que meu pai concordava com essas punições e eu faria minha mãe se separar dele se contasse. E ninguém queria ser filho de pais divorciados na minha adolescência. Só quando eu tinha 13 anos tomei coragem de contar a verdade para os dois durante o jantar, e ouvi meu pai chorando com minha mãe a noite inteira, dizendo a ela que minha avó fazia o mesmo com ele e os irmãos. A manipulação, mantendo a gente sempre sob tensão de fazer algo errado e ser punido...
                    Aline agora segurava a porta do elevador com o pé e ia passando os vasos para dentro, deixando um pequeno espaço para ela e o marido entrarem.
                   – Vamos? – Ela falou sem emoção e Heitor ficou ali encarando a esposa. Podia ser a imaginação dele, mas ela estava com a mesma expressão vazia nos olhos que sua avó tinha quando encontrava algo que podia culpá-lo.
                   – Por que nós não podemos comprar novas plantas? Você quer plantas? Nós vamos ao centro da cidade, eu te dou meu cartão de crédito e deixo você encher o carro até o teto, como uma mini floresta Amazônica. – Ele virou de costas para aquele olhar que lhe provocava arrepios e se enrolou com as chaves para trancar a porta do apartamento.
                  – Não vejo motivo pra deixarmos essas plantas morrerem aqui e nem para gastarmos o nosso dinheiro, que pode ser gasto com outra coisa, com todas essas plantas disponíveis. 
                  Heitor fechou os olhos. O cheiro de tantas plantas juntas no espaço pequeno do elevador o estava deixando enjoado e, definitivamente, o tom de voz de sua esposa o estava lembrando da voz de sua avó dizendo que ele era burro como o pai, que não adiantava fazer o dever de casa para não conversar com ela porque ele nunca seria nada na vida.
                  Eles colocaram todas as plantas no banco de trás e no chão do carro. O único espaço livre, além dos bancos que os dois ocupavam, era o espaço para Heitor usar os pedais. Até em cima do painel Aline tinha equilibrado pequenos vasos de cactos de formatos esquisitos.
                  – Será que dá pra você parar de ficar olhando para as plantas como se elas fossem atacar você? – Aline falou com impaciência, os braços cruzados com força sob os seios.
                  – E será que dá pra você ficar do meu lado uma vez na vida? Essas plantas só me trazem más recordações! – Heitor tremia e a roda dianteira do carro esbarrou no meio fio quando ele fez uma curva.
                  – Olha o que você fez! Dois vasos viraram aqui atrás! Vou ter que replantar quando chegarmos em casa. Será que você não pode parar de frescura?
                  O casal não trocou mais nenhuma palavra durante o trajeto e nem quando levavam as plantas para o próprio apartamento. Aline não conseguia explicar pra si mesma porque estava tão irritada com o marido e nem porque aquelas plantas eram tão importantes. Ela só tinha visto a avó dele duas vezes.  Mas ela estava cansada de ceder aos caprichos do marido. A casa era dela também, não era?



                 Uma hora depois Heitor já tinha tomado um banho demorado na tentativa de se livrar do cheiro das plantas, mas assistia a televisão na sala com a impressão que o cheiro das plantas na cozinha estava empesteando o apartamento inteiro, trazendo a energia negativa da avó. Assim que ele saiu do chuveiro foi colocar a roupa que tinha usado na máquina de lavar, e viu a esposa trabalhando freneticamente nos dois vasos que tinham virado no carro. A testa dela brilhava de suor e ela nem levantou os olhos quando ele passou.
                 Na cozinha, Aline começou a colocar no liquidificador os ingredientes pro suco detox que o marido tomava duas vezes por semana, mas uma grande lufada de vento agitou as plantas e fez algumas folhas se soltarem daqueles vasos que ela tinha replantado. Ela foi até a porta da cozinha e não ficou nem um pouco surpresa ao ver que o marido tinha aberto completamente a janela e ligado os dois ventiladores de teto na velocidade máxima.
                 – Pelo amor de Deus, Heitor! Não está fazendo tanto calor assim! O vento está quase levantando as panelas na cozinha. – Agora ela se sentia realmente irritada com o marido, e ainda estava olhando por cima do ombro e resmungando sobre as criancices dele quando encaixou a tampa no liquidificador, sem perceber que algumas das folhas das plantas que ela replantara tinham se soltado e caído na mistura de folhas de hortelã e couve que estava por cima de pedaços de melão, maçã verde e abacaxi. O barulho do liquidificador funcionando pareceu relaxar sua mente e, quando ela levou o grande copo de suco para seu marido, ele já tinha desligado os ventiladores.
                 – Vou tomar banho e tirar um cochilo, OK? – Ela falou ao sair da sala, enquanto Heitor tomava grandes goles do suco fazendo careta.
                 – Esse suco está com o gosto meio estranho. Você fez uma receita nova? – Ele perguntou quando já tinha se forçado a engolir metade do copo.


                 – Ai, Heitor. – Aline revirou os olhos e continuou a andar na direção do banheiro. – Você está fresco hoje, hein? Que saco!
                 – Eca! – Heitor murmurou para si mesmo ao olhar para o fundo do copo. Ok, ele realmente podia estar com o olfato e o paladar mais sensíveis por causa da overdose de cheiros daquela manhã, mas o suco era recomendação médica, e ele achou melhor tomar o que sobrara no liquidificador de uma vez, enquanto ainda estava suportando aquele gosto.
                 Heitor se sentiu sufocando em sua cozinha rodeado de todas aquelas plantas, os vasos enormes apoiados ou pendurados em cada canto que a esposa conseguiu encontrar. Ele virou o resto do conteúdo do liquidificador no copo olhando de cara feia para tanto verde ao seu redor, e voltou para a sala o mais rápido que pôde.

                

                Aline só acordou quando já era noite, e estranhou que a casa estivesse às escuras. Talvez o Heitor tenha ido dar uma caminhada e relaxar um pouco. Ela pensou vagamente quando acendeu a luz da cozinha; ela realmente não queria ser uma esposa megera, mas o marido não podia pelo menos ter enchido o liquidificador de água depois de ter terminado de beber o suco? Ela soltou o copo do liquidificador da base e já estava na pia quando notou quatro folhas grudadas debaixo da pequena hélice. Pegou uma delas com as pontas dos dedos ensaboados e reconheceu a forma ovalada; era da Zamioculca que ela tinha reenvasado quando chegaram em casa. Ela jogou as folhas no lixo e terminou de lavar a louça sem pensar mais nisso por alguns minutos, não tinha importância. Então a xícara que estava ensaboando escapou de sua mão e se quebrou na pia quando ela lembrou de algo que o marido falara mais cedo. Nunca entendi essa preferência que ela tinha, vivia buscando tipos diferentes de plantas tóxicas. 
                 Ela correu para a sala e acendeu o interruptor com as mãos ainda cheias de sabão, e um grito desesperado encheu o apartamento quando ela viu o marido caído no chão da sala, os olhos arregalados e sem vida, um vômito verde saindo de sua boca de lábios azuis.

          Óbito por sufocação e choque anafilático. Tinha sido o laudo do legista. Antes de imprimir o relatório, ele não pode evitar o pensamento: Que acidente bizarro para uma sexta feira 13...

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